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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A EDUCAÇÃO SENTIMENTAL


“L’amour est à réinventer.”
Arthur Rimbaud

JULES E JIM – UM AMOR PARA DOIS

Jules et Jim. 1962. FRA. Dir: François Truffaut. Roteiro: François Truffaut e Jean Gruault, baseado no romance homônimo de Henri Pierre Roché. Prod.: Les Films du Carosse e Sedif. Foto: Raoul Coutard. Edição: Cladine Bouche. Com: Jeanne Moreau, Henri Serre e Oskar Werner.

1. O TURBILHÃO DA VIDA

Jules e Jim, obra-prima de François Truffaut, é um dos principais expoentes da Nouvelle Vague, vanguarda cinematográfica que tinha por objetivo revigorar o cinema francês, dando primazia ao papel do diretor, em detrimento das grandes produções realizadas em estúdio.

A principal proposta da Nouvelle Vague era a realização de filmes baratos, inovadores, intimistas, repletos da força e energia da juventude, em que cada diretor traria sua marca pessoal, isto é, cada filme deveria trazer uma espécie de assinatura poética, particular a cada “autor”. Embora a Nouvelle Vague só estreasse em 1959, com os filmes Hiroshima, Mon Amour, de Alain Resnais, Acossado, de Jean-Luc Godard, e Os Incompreendidos, de François Truffaut, a política do “cinema de autor” tem a sua gênese na publicação do artigo “Une certainne tendance du cinéma français”, em 1954, na revista Cahiers du Cinéma, escrito pelo então crítico François Truffaut. A política de autor, a qual cada diretor seria responsável pela roteirização, produção, edição, escolha de elenco e da trilha sonora etc., tinha como modelo Alfred Hitchcock, arquétipo par excellence dessa concepção sobre o cinema moderno. Não à toa, Truffaut, que realizaria, na década de 1960, uma série de entrevistas com “o mestre do suspense”1, via na obra de seu grande ídolo uma série de particularidades intrínsecas ao seu estilo de contar histórias, em outras palavras, quando o espectador assistia aos seus filmes, notava as características que identificavam o seu estilo de filmar. Truffaut via em Hitchcock o modelo do “autor total”, do gênio criador, e como qualquer discípulo que, a despeito da admiração, não quer viver à sombra do mestre, sujeito à sua influência, o cineasta francês criou a sua própria maneira de contar histórias, isto é, a partir de suas experiências biográficas, Truffaut inventou um cinema que falava do amor, da amizade, da infância, do amor ao cinema e da morte, porém, tudo isto com sua marca pessoal, sua assinatura poética.

Jules e Jim não é apenas um filme sobre o amor, nem um filme sobre a amizade; tampouco, é um filme de amor sobre a amizade, nem um filme de amizade sobre o amor. Jules e Jim é, antes de tudo, um filme sobre os instantes, isto é, sobre os instantes da vida. De acordo com a velha “filosofia de botequim”, a vida é feita de instantes. Porém, mais do que isso, a vida é feita de instantes que são experienciados, instantes plenos e eternos. Ora, para Benjamin, o cinema, devido à sua natureza reprodutível, é uma arte sem “aura”, sem o hic et nunc da criação artística. Isto parece demasiado estéril, pois, ao contrário disso, o cinema é a única arte capaz de apreender o tempo. De acordo com Benjamin, “Mesmo na reprodução mais perfeita falta uma coisa: o aqui e agora da obra de arte – a sua existência única no lugar em que se encontra”2. Isto significa dizer que todas as artes, exceto a pintura, a escultura e a arquitetura, perderam a sua “aura do aqui e agora”. Contudo, a fotografia, arte que apreende o instante, bem como o cinema, em que cada segundo corresponde a 24 fotogramas, são artes do momento. De acordo com Jacques Aumont,

“(...) o cinema tem a capacidade intrínseca de captar o tempo, de 'pegar o que quer da vida', sem ter de trabalhar nisso particularmente. O cinema é a arte (e a técnica) da captação passiva do tempo dos acontecimentos, como a esponja que absorve a água; a substância do cinematógrafo é o tempo do acontecimento - e talvez, simplesmente, o tempo.”

O cinema é, portanto, a arte do tempo, a arte dos instantes. Truffaut, que, além de cineasta, era um dos principais teórico do cinema, tinha completa noção daquilo que realizava. Quando o narrador de Jules e Jim afirma em certo momento: “Eles sabiam que nada voltaria a ser como antes”, está, na verdade, constatando aquilo que o espectador percebe ao assistir ao filme. Em Jules e Jim é patente esse jogo com o tempo. O passado, aquilo que aconteceu, é algo certo; o presente, o instante que ainda não terminou, está sendo construído; o futuro, o que ainda não aconteceu, é incerto. Sartre, em suas conversas com Simone de Beauvoir, afirmou que, no cinema, não há contingência, pois tudo é planejado pelo diretor no set de filmagens. Isto, porém, é duvidoso, pois, de acordo com Aumont,

“O filme não é algo que se domine e calcule; trata-se de criar ou recriar uma experiência, que deve ser vivida pela primeira vez durante a filmagem. Como para Bresson, o cineasta deve permanecer na in-vontade (...): depende do que ele encontrará, mas trabalha para provocar esse encontro em condições favoráveis.”

A vida é, pois, como um rio cujas águas correm sem cessar, sendo impossível voltar ao passado ou determinar o futuro. No filme de Truffaut, isto é notável, haja vista que, devido aos pathos das personagens, sobretudo, Catherine (a personagem principal), mulher de caráter volúvel e impulsivo, é impossível determinar qual será sua próxima ação. Há, pelo menos, três cenas do filme que exemplificam essa afirmação: Catherine atira-se no rio após a saída do teatro; Catherine, inesperadamente, dá uma bofetada em Jules em momento de brincadeira; Catherine, inopinadamente, corre e pede para que Jim a siga, na segunda metade do filme.

O acaso, o incerto e o pathos são o imperativo categórico de Jules e Jim. A quem assiste ao filme pela primeira vez é impossível antever as ações das personagens, as quais estão sempre subordinadas ao pathos. O passado, isto é, as águas que nunca mais retornarão, traz o sentimento de saudade, de nostalgia em relação ao passado e ao futuro, já que as personagens querem resgatar no futuro o “paraíso perdido” do passado. Quando Truffaut afirmou: “Jules e Jim é um sonho: todos nós sofremos diante do aspecto transitório da vida, e este filme nos leva a acreditar justamente (...) O sonho, a idealização cinematográfica, a apreensão do instante, leva-nos a querer que as imagens edênicas do início do filme, como, por exemplo, as férias à três, retornem novamente. Mas, como o passado não existe mais, devemos gozar o presente com intensidade, plenitude.

Pois bem, Jules e Jim é um filme sobre o instante. Cabe, portanto, enumerá-los, agora, para demonstrar que o turbilhão da vida é repleto de momentos efêmeros, porém, imbuídos do sentimento de eternidade.

(CONTINUA)


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A MORTE DO CINEMA

As discussões sobre a “literatura culta” e a “literatura de massa” têm sido levantadas desde a primeira metade do século XIX. O cinema, cujo caminho per aspera ad astra só foi consolidado a partir da década de 1950, com a revista Cahiers du Cinéma e a ascensão do cinema europeu pós-guerra, está novamente tendo de provar o seu valor frente às novidades tecnológicas e a banalização do conceito de arte.

Adorno foi um crítico feroz da chamada sétima arte, afirmando que

“O cinema e o rádio não precisam mais se apresentar como arte. A verdade de que não passam de um negócio, eles a utilizam como uma ideologia destinada a legitimar o lixo que propositalmente produzem. Eles se definem a si mesmos como indústrias, e as cifras publicadas dos rendimentos de seus diretores gerais suprimem toda dúvida quanto à necessidade social de seus produtos.” (p. 57)

Com dor no coração os cinéfilos têm de concordar com o mestre de Frankfurt, pois se compararmos, por exemplo, o “lixo em película” que produzem estúdios como Miramax, Dreamworks, Warner Bros., Universal e Paramount com a arte verdadeira, teremos de admitir que o cinema não é arte. Adorno, após assistir a filmes de Chaplin e Antonioni, atenuou o seu discurso exacerbado contra o cinema, mas se ele ainda estivesse vivo para assistir a lixos como Quarteto Fantástico, As Crônicas de Nárnia, X-Men, Hulk, 300, a série sem fim dos filmes do Homem-Aranha, Todo Mundo em Pânico, as comédias românticas estreladas por Mark Ruffalo, Ashton Kutcher e Jennifer Anniston, as imbecis comédias de Rob Schneider, Adam Sandler, Irmãos Wayans e Cia., os filmes de terror importados do Japão (onde o único conteúdo é o banho de sangue e as vísceras mutiladas), os épicos pseudo-históricos de Kevin Costner, Mel Gibson e Oliver Stone, entre tantas outras bobagens que o cinema hollywoodiano produziu nas últimas décadas.

A derrocada da arte cinematográfica foi inaugurada com Guerra nas Estrelas e o “show de efeitos especiais”, porque, desde esse produto industrial (não filme), tudo quanto aconteceu foi meramente produto de consumo para um público desprovido de qualquer senso estético e intelectual. O que Adorno diz a respeito dos filmes de Hollywood da década de 30 e 40 é perfeitamente adequado ao que acontece nos nossos dias. É o eterno retorno da mediocridade. Segundo Adorno

“Cada filme é um trailer do filme seguinte, que promete reunir mais uma vez sob o mesmo sol exótico o mesmo par de heróis; o retardatário não sabe se está assistindo ao trailer ou ao filme mesmo. O caráter de montagem da indústria cultural, a fabricação sintética e dirigida de seus produtos, que é industrial não apenas no estúdio – cinematográfico, mas também (pelo menos virtualmente) na compilação das biografias baratas, romances-reportagem e canções de sucesso, já estão adaptados de antemão à publicidade: na medida em que cada elemento se torna separável, fundível e também tecnicamente alienado à totalidade significativa, ele se presta a finalidades exteriores à obra. O efeito, o truque, cada desempenho isolado e receptível foram sempre cúmplices da exibição de mercadorias para fins publicitários, e atualmente todo close de uma atriz de cinema serve de publicidade de seu nome, todo sucesso tornou-se um plug de sua melodia. Tanto técnica quanto economicamente, a publicidade e a indústria cultural se confundem.” (P. 77)


A publicidade, menina dos olhos do capitalismo medíocre, é, indubitavelmente, a cafetina cultural, uma espécie de prostituta que corrompe àqueles que têm ânsia de fama e do sucesso, os quais são conseqüência da própria publicidade, uma filha prostituída da burguesia tardia. Trata-se de um círculo vicioso sem esperança de salvação, haja vista que quem não se submete a esse lucrativo pacto com o demônio terá de vender a alma por uma esmola.

Contudo, “o cinema de arte” dá, heroicamente, os seus últimos suspiros no circuito independente, ao produzir filmes herméticos e desprovidos de qualquer narrativa (como se contar uma história fosse um pecado capital), na tentativa de tirar do coma um paciente que cansou de lutar contra si mesmo, contra sua própria natureza. Nas cerimônias do Oscar, assistimos aos filmes pseudo-artísticos como: Adaptação, Billy Elliot, Desejo e Reparação, Milk, etc. O único mérito destes filmes é não ter o mesmo público de As Branquelas, porque o máximo que o espectador vai levar para a casa é uma enxaqueca ou uma indigestão. Os chamados filmes americanos de arte do século XXI conseguem ser mais chatos e indigestos do que uma aula de gramática da língua portuguesa sobre as Orações Subordinadas Substantivas Objetivas Diretas e Indiretas, independente de quem seja o professor. E os vencedores em Veneza e em Cannes, então?
Creio que o falecimento, em 2007, de Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni tem um significado simbólico: a morte do cinema, da arte cinematográfica. Ora, morreram na década de 70: Visconti, Fitz Lang, Renoir, Rossellini e Pasolini; na década de 80, Welles, Hitchcock, Truffaut, Buñuel e Tarkovski; e, na década de 90, Kubrick, Fellini, David Lean e Kurosawa. Não quero agourar ninguém, mas depois que Godard, Resnais e Woody Allen morrerem, quem representará o cinema? Martin Scorsese? Francis Ford Coppola? Almodóvar ou Steven Spielberg? Não, nenhum desses é digno de representar a arte de Chaplin e Bergman. Diante disto, cabe a constatação: O cinema morreu, e foi a mesma burguesia que o criou que o matou! Quer dizer, não a mesma... Daquela nasceu o cinema, da de hoje não vale a pena enumerar um a um, seriam necessárias horas até que eu termine... E Eu já estou farto deste velório. Fica somente a saudade, assistindo, no meu DVD, a filmes como Aurora, A Doce Vida, A Regra do Jogo, Crepúsculo dos Deuses... O resto é silêncio.


REFERÊNCIAS

ADORNO, THEODOR & HORKHEIMER, MAX. A DIALÉTICA DO ESCLARECIMENTO. VERSÃO E-BOOK.

sábado, 19 de setembro de 2009

O CÂNONE DA SÉTIMA ARTE – PARTE V

Finalmente, os melhores filmes de acordo com o site os melhores filmes, que, a meu ver, é a melhor síntese das listas divulgadas por qualquer revista, site ou instituição, embora apresente, também, algumas incoerências. Eis o TOP 100:

1. Cidadão Kane (1941)
2. A Regra do Jogo (1939)
3. Um Corpo que Cai (1958)
4. 8 ½ (1963)
5. 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968)
6. O Poderoso Chefão 2 (1974)
7. O Encouraçado Potemkin (1925)
8. Cantando na Chuva (1952)
9. O Poderoso Chefão (1972)
10. Era uma vez em Tóquio (1953)
11. Os Sete Samurais (1954)
12. Rastros de Ódio (1956)
13. A Aventura (1960)
14. Ladrões de Bicicleta (1948)
15. O Martírio de Joana D’Arc (1928)
16. Lawrence da Arábia (1962)
17. Touro Indomável (1980)
18. Acossado (1959)
19. A Doce Vida (1960)
20. Quanto mais quente melhor (1959)
21. O Atalante (1934)
22. Luzes da Cidade (1931)
23. Aurora (1927)
24. Psicose (1960)
25. Rashomon (1950)
26. Doutor Fantástico (1964)
27. Casablanca (1942)
28. A General (1928)
29. Crepúsculo dos Deuses (1950)
30. Jules e Jim (1962)
31. Fanny & Alexander (1982)
32. Taxi Driver (1976)
33. Contos da Lua Vaga (1953)
34. Pacto de Sangue (1944)
35. A Marca da Maldade (1958)
36. Sindicato de Ladrões (1954)
37. A Canção da Estrada (1955)
38. Chinatown (1974)
39. Morangos Silvestres (1957)
40. A Grande Ilusão (1937)
41. O Boulevard do Crime (1945)
42. Ivan, o Terrível – Parte I (1944)
43. Apocalypse Now (1979)
44. Ouro e Maldição (1924)
45. A Grande Testemunha (1966)
46. O Sétimo Selo (1956)
47. Intriga Internacional (1959)
48. O Terceiro Homem (1949)
49. Em Busca do Ouro (1925)
50. O Tesouro de Sierra Madre (1948)
51. Soberba (1942)
52. O Desprezo (1963)
53. Metrópolis (1927)
54. A Lista de Schindler (1993)
55. A Palavra (1955)
56. Matar ou Morrer (1952)
57. Janela Indiscreta (1954)
58. Os Incompreendidos (1959)
59. Se meu Apartamento Falasse... (1960)
60. Guerra nas Estrelas (1977)
61. M, O Vampiro de Düsseldorf (1931)
62. Um Estranho no Ninho (1975)
63. O Conformista (1970)
64. Tempos Modernos (1936)
65. Amarcord (1974)
66. A Malvada (1950)
67. A Estrada da Vida (1954)
68. Andrei Rublev (1966)
69. A Ponte do Rio Kwai (1957)
70. Os Bons Companheiros (1990)
71. A Felicidade não se compra (1946)
72. Persona (1966)
73. Pulp Fiction – Tempo de Violência (1994)
74. O Intendente Sansho (1954)
75. Viridiana (1961)
76. O Leopardo (1963)
77. Amadeus (1984)
78. A Batalha de Argel (1966)
79. Ran (1985)
80. Blade Runner, O Caçador de Andróides (1982)
81. Desencanto (1946)
82. Embriaguez de Sucesso (1957)
83. Relíquia Macabra (1941)
84. O Espelho (1975)
85. Napoleão (1927)
86. O Mágico de Oz (1939)
87. Onde Começa o Inferno (1959)
88. Laranja Mecânica (1971)
89. ... E o Vento Levou (1939)
90. Uma Aventura na África (1951)
91. Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977)
92. Meu Ódio será sua Herança (1969)
93. ET – O Extraterrestre (1982)
94. Núpcias de Escândalo (1940)
95. As Oito Vítimas (1949)
96. Rocco e seus Irmãos (1960)
97. Aconteceu naquela Noite (1934)
98. Coronel Blimp – Vida e Morte (1943)
99. O Mensageiro do Diabo (1955)
100. Levada da Breca (1938)

Para visualizar a lista completa, acesse ao site: http://melhoresfilmes.com.br/filmes

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O CÂNONE DA SÉTIMA ARTE – PARTE IV

O site de cinema melhores filmes – www.melhoresfilmes.com.br – divulga a lista completa dos melhores filmes já feitos. Há na lista mais de 3000 filmes, classificados por notas que vão de 0 a 10, embora, em minha última consulta ao site, eu tenha notado que estão presentes na lista apenas os filmes que obtiveram nota superior ou igual a sete. Ao contrário de outros sites de cinema, como o IMDB (Internet Movie Data Base), adoro cinema e cine players, o site melhores filmes não classifica os filmes de acordo com a opinião dos internautas, mas sim segundo critérios que, certamente, são canônicos (e isto, creio eu, é um fator positivo). Talvez por isso, a coerência deste site seja maior do que a do IMDB, cujos 10 melhores filmes são:

1. Um Sonho de Liberdade (1994)
2. O Poderoso Chefão (1972)
3. O Poderoso Chefão 2 (1974)
4. Três Homens em Conflito (1966)
5. Pulp Fiction – Tempo de Violência (1994)
6. A Lista de Schindler (1993)
7. 12 Homens e 1 Sentença (1957)
8. Um Estranho no Ninho (1975)
9. Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008)
10. O Império Contra-ataca (1980)

Esta lista, publicada em setembro de 2009, traz disparates imensuráveis, como a presença do mediano blockbuster Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008), de Christopher Nolan. Ademais, nota-se que, entre os dez melhores, estão presentes 12 Homens e 1 Sentença, de Sidney Lumet, Pulp Fiction, de Quentin Tarantino, A Lista de Schindler, de Steven Spielberg e O Império Contra-ataca, de Irwin Kershner. Não há dúvidas que esses filmes sejam bons, mas eles estão longes de serem dignos de um Top 10 dos melhores de todos os tempos.

É razoável que o excelente Um Estranho no Ninho, de Milos Forman, e Três Homens em Conflito, de Sergio Leone, estejam entre os dez melhores, bem como a escolha óbvia das obras-primas O Poderoso Chefão I e II, que agradam tanto à crítica quanto ao público. A insensatez é Um Sonho de Liberdade ser apontado como o melhor filme de todos os tempos... Tudo bem, é um filme interessante, até inteligente... Mas, convenhamos, isto é motivo para ser considerado o melhor?! É claro que se trata da opinião de internautas que assistiram a um único filme e se sentem no direito de votar num site especializado em cinema, e, portanto, a opinião deles não deve ser levada em consideração... É óbvio que o público jovem se sente atraído por filmes arrasta-quarteirões como Batman, e pelo fato de jamais terem assistido a um filme realmente bom, julgam que seus gostos medíocres devam prevalecer sobre aquilo que foi estudado e analisado por pessoas que verdadeiramente sabem sobre cinema, (eu não me coloco nesta categoria, estou apenas opinando a respeito dessas discrepâncias), pois é... Gosto é gosto...

Em 1998, uma entidade oficial, o AFI, realizou o que seria a lista definitiva no que concerne aos melhores filmes já feitos (leia-se: os melhores filmes do cinema americano). Eis os 20 primeiros:

1. Cidadão Kane (1941)
2. Casablanca (1942)
3. O Poderoso Chefão (1972)
4. …E o Vento Levou (1939)
5. Lawrence da Arábia (1962)
6. O Mágico de Oz (1939)
7. A Primeira Noite de um Homem (1967)
8. Sindicato de Ladrões (1954)
9. A Lista de Schindler (1993)
10. Cantando na Chuva (1952)
11. A Felicidade não se compra (1946)
12. Crepúsculo dos Deuses (1950)
13. A Ponte do Rio Kwai (1957)
14. Quanto mais quente melhor (1959)
15. Guerra nas Estrelas (1977)
16. A Malvada (1950)
17. Uma Aventura na África (1951)
18. Psicose (1960)
19. Chinatown (1974)
20. Um Estranho no Ninho (1975)

Como se não bastasse a exclusão dos filmes europeus, asiáticos, sul-americanos, etc., a instituição “bairrista” elegeu A Primeira Noite de um Homem (1967), de Mike Nichols, como o sétimo melhor filme de todos os tempos, relegando obras-primas como Rastros de Ódio à 96ª posição, Luzes da Cidade à 76ª posição, Um Corpo que Cai e O Poderoso Chefão – parte II às 61ª e 32ª posições, respectivamente, além de outras escolhas equivocadas, como a presença de filmes insignificantes (para ser educado), como Platoon (1986), de Oliver Stone, Forrest Gump (1994), de Robert Zemmeckis, American Graffiti - Loucuras de Verão (1973), de George Lucas, e pasmem!!! Rocky, Um Lutador (1976), de John G. Avildsen.

Em 2007, o American Film Institute fez uma lista comemorativa de 10 anos da primeira lista. Aqui, a insanidade é ainda maior:

99. Toy Story (1995)
96. Faça a Coisa Certa (1989)
89. O Sexto Sentido (1999)
83. Titanic (1997)
72. Um Sonho de Liberdade (1994)
71. O Resgate do Soldado Ryan (1998)
63. Cabaret (1972)
50. O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel (2001)

Por outro lado, nem “tudo é vaidade nem aflições de ânimo”, pois, entre as vinte primeiras posições, há filmes melhores (segundo a minha opinião), em relação à primeira lista da instituição.

1. Cidadão Kane (1941)
2. O Poderoso Chefão (1972)
3. Casablanca (1942)
4. Touro Indomável (1980)
5. Cantando na Chuva (1952)
6. ... E O Vento Levou (1939)
7. Lawrence da Arábia (1962)
8. A Lista de Schindler (1993)
9. Um Corpo que Cai (1958)
10. O Mágico de Oz (1939)
11. Luzes da Cidade (1931)
12. Rastros de Ódio (1956)
13. Guerra nas Estrelas (1977)
14. Psicose (1960)
15. 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968)
16. Crepúsculo dos Deuses (1950)
17. A Primeira Noite de um Homem (1967)
18. A General (1928)
19. Sindicato de Ladrões (1954)
20. A Felicidade não se compra (1946)

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O CÂNONE DA SÉTIMA ARTE – PARTE III

“Mudam-se os tempos, mudam-se os gostos”

O que, à primeira vista, poderia resolver o problema, de fato, trouxe consigo outros maiores. Comparemos as listas de 1952 e 1962:

BFI – 1952

1. Ladrões de Bicicleta (De Sica)
2. Luzes da Cidade (Chaplin)
2. Em Busca do Ouro (Chaplin)
4. O Encouraçado Potemkin (Eisenstein)
5. Intolerância (Griffith)
5. Louisiana Story (Flaherty)
7. Ouro e Maldição (von Stroheim)
7. Trágico Amanhecer (Carné)
7. O Martírio de Joana D’Arc (Dreyer)
10. Desencanto (Lean)
10. A Regra do Jogo (Renoir)

BFI – 1962

1. Cidadão Kane (Welles)
2. A Aventura (Antonioni)
3. A Regra do Jogo (Renoir)
4. Ouro e Maldição (von Stroheim)
4. Contos da Lua Vaga (Mizoguchi)
6. O Encouraçado Potemkin (Eisenstein)
7. Ladrões de Bicicleta (De Sica)
7. Ivan, o Terrível (Eisenstein)
9. A Terra Treme (Visconti)
10. O Atalante (Vigo)

A primeira posição ocupada, na lista de 1952, por Ladrões de Bicicleta (1948) foi substituída por Cidadão Kane (1941), na lista de 1962. Desde a primeira posição existe uma incongruência, pois, na nova lista, deveriam estar presentes apenas os filmes produzidos entre o período de 1952-1962, o que não ocorre. Da primeira lista, os únicos remanescentes são: Ladrões de Bicicleta (1948), de Vittorio de Sica, A Regra do Jogo (1939), de Jean Renoir, Ouro e Maldição (1924), de Erich Von Stroheim, e O Encouraçado Potemkin (1925), de Sergei Eisenstein. Por outro lado, seis filmes inéditos aprecem na segunda lista: O Atalante (1934), de Jean Vigo, A Terra Treme (1947), Ivan, o Terrível (1944), de Sergei Eisenstein, Contos da Lua Vaga (1953), de Kenji Mizoguchi, A Aventura (1960), de Michelangelo Antonioni, e Cidadão Kane (1941), de Orson Welles. De fato, os únicos filmes que não poderiam estar na primeira lista são Contos da Lua Vaga e A Aventura, pois foram produzidos depois de 1952. O que é surpreendente é o fato de dois filmes de um diretor tão consagrado e canonizado como Charles Chaplin serem excluídos da segunda lista. Na terceira lista, surgem mais divergências:

BFI – 1972

1. Cidadão Kane (Welles)
2. A Regra do Jogo (Renoir)
3. O Encouraçado Potemkin (Eisenstein)
4. 8 1/2 (Fellini)
5. A Aventura (Antonioni)
5. Persona (Bergman)
7. O Martírio de Joana D’Arc (Dreyer)
8. A General (Keaton)
8. Soberba (Welles)
10. Contos da Lua Vaga (Mizoguchi)
10. Morangos Silvestres (Bergman)

A primeira posição foi mantida por Cidadão Kane. A terceira lista marca, também, a evolução de A Regra do Jogo, que ascendeu da 10ª posição, na primeira lista, e 3ª posição, na segunda lista, para a 2ª posição na terceira. A Aventura cai três posições, indo do segundo para o quinto lugar. O Martírio de Joana D’Arc, 7º na primeira lista, e que ficou de fora na segunda, reaparece novamente na 7ª posição. Entre os novos filmes temos: Morangos Silvestres (1957) e Persona (1966), de Ingmar Bergman, A General (1928), de Buster Keaton, Soberba (1942), de Orson Welles, e 8 ½, de Federico Fellini. Ficaram de fora da terceira lista: Ouro e Maldição (1924), de Erich Von Stroheim, O Atalante (1934), de Jean Vigo, A Terra Treme (1947) e Ivan, o Terrível (1944). Eis a quarta lista:

BFI – 1982

1. Cidadão Kane (Welles)
2. A Regra do Jogo (Renoir)
3. Os Sete Samurais (Kurosawa)
3. Cantando na Chuva (Kelly, Donen)
5. 8 1/2 (Fellini)
6. O Encouraçado Potemkin (Eisenstein)
7. A Aventura (Antonioni)
7. Soberba (Welles)
7. Um Corpo que Cai (Hitchcock)
10. A General (Keaton)
10. Rastros de Ódio (Ford)

Cidadão Kane e A Regra do Jogo mantêm suas posições. O Encouraçado Potemkin, A Aventura e A General perdem posições. Os Sete Samurais (1954), de Akira Kurosawa, aparece, pela primeira vez na lista, já na terceira posição, assim como Cantando na Chuva (1952), de Gene Kelly e Stanley Donen. Um Corpo que Cai (1958), de Alfred Hitchcock, e Rastros de Ódio (1956), de John Ford, também estréiam na lista.

Em 1992, ocorre uma mudança. Agora, além da lista dos críticos, há a lista dos diretores de cinema.

BFI – 1992

Lista dos Diretores:

1. Cidadão Kane (Welles)
2. 8 1/2 (Fellini)
2. Touro Indomável (Scorsese)
4. A Estrada da Vida (Fellini)
5. O Atalante (Vigo)
6. O Poderoso Chefão (Coppola)
6. Tempos Modernos (Chaplin)
6. Um Corpo que Cai (Hitchcock)
9. O Poderoso Chefão 2 (Coppola)
10. O Martírio de Joana D’Arc (Dreyer)
10. Rashomon (Kurosawa)
10. Os Sete Samurais (Kurosawa)

Lista dos Críticos:

1. Cidadão Kane (Welles)
2. A Regra do Jogo (Renoir)
3. Era uma vez em Tóquio (Ozu)
4. Um Corpo que Cai (Hitchcock)
5. Rastros de Ódio (Ford)
6. O Atalante (Vigo)
6. O Martírio de Joana D’Arc (Dreyer)
6. A Canção da Estrada (Ray)
6. O Encouraçado Potemkin (Eisenstein)
10. 2001: Uma Odisséia no Espaço (Kubrick)

A hegemonia de Cidadão Kane é mantida nas listas dos diretores e dos críticos. A Regra do Jogo mantém-se em segundo. Na lista dos críticos, temos a reaparição de O Martírio de Joana D’Arc, bem como de O Atalante. Estréiam 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick, A Canção da Estrada (1955), de Satyajit Ray, e Era uma vez em Tóquio (1953), de Yasujiro Ozu. O Encouraçado Potemkin, presente desde a primeira lista, ocupa a 6ª posição.

Na lista dos diretores, no entanto, aparecem filmes que até então não haviam sido mencionados, como: Rashomon (1950), de Akira Kurosawa, O Poderoso Chefão I e II (1972-74), de Francis Ford Coppola, Tempos Modernos (1936), de Charles Chaplin, A Estrada da Vida (1954), de Federico Fellini, e Touro Indomável (1980). Em relação à lista de 1982, há novamente a presença de 8 ½, Os Sete Samurais, Um Corpo que Cai e Cidadão Kane.

As últimas listas divulgadas pela BFI, por meio da revista Sight & Sound, em 2002, foram as seguintes:

BFI – 2002

Lista dos críticos:

1. Cidadão Kane (Welles)
2. Um Corpo que Cai (Hitchcock)
3. A Regra do Jogo (Renoir)
4. O Poderoso Chefão e O Poderoso Chefão 2 (Coppola)
5. Era uma vez em Tóquio (Ozu)
6. 2001: Uma Odisséia no Espaço (Kubrick)
7. O Encouraçado Potemkin (Eisenstein)
7. Aurora (Murnau)
9. 8 1/2 (Fellini)
9. Cantando na Chuva (Kelly, Donen)

Lista dos diretores

1. Cidadão Kane (Welles)
2. O Poderoso Chefão e O Poderoso Chefão 2 (Coppola)
3. 81/2 (Fellini)
4. Lawrence da Arábia (Lean)
5. Doutor Fantástico (Kubrick)
6. Ladrões de Bicicleta (De Sica)
6. Touro Indomável (Scorsese)
6. Um Corpo que Cai (Hitchcock)
9. Rashomon (Kurosawa)
9. A Regra do Jogo (Renoir)
9. Os Sete Samurais (Kurosawa)

Na lista dos críticos, a única novidade é Aurora (1927), de F.W. Murnau, além da volta de Cantando na Chuva. Há, também, algumas trocas de posições. Maiores mudanças ocorrem, no entanto, na lista dos diretores. Os dois primeiros filmes da trilogia O Poderoso Chefão aparecem na segunda posição, atrás somente do imbatível Cidadão Kane. Ladrões de Bicicleta, fora desde a lista de 1962, retorna à 6ª posição. Doutor Fantástico (1964), de Stanley Kubrick, é surpreendentemente eleito o quinto melhor filme, relegando outro filme do diretor que vinha em escala ascendente nas listas anteriores, 2001: Uma Odisséia no Espaço. Igualmente surpreendente é a presença de Lawrence da Arábia (1962), de David Lean, no quarto lugar. A maior incoerência não é a ascensão imediata do épico de David Lean, mas sim a rejeição que o filme sofrera até 2002, não estando presente em nenhum TOP 10 da revista britânica.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O CÂNONE DA SÉTIMA ARTE – PARTE II

O simples fato de eu ter mencionado aqueles filmes como marcos iniciais de um gênero ou período demonstra que a importância que esses filmes adquiriram deve-se, em grande parte, ao que eles revolucionaram na arte cinematográfica. Ora pois, que contribuições um filme como As Branquelas (2004) fez para a inovação do cinema tanto tecnicamente quanto artisticamente? NADA! De fato, esse filme não passa de um pasticho mau feito e pouco criativo de Quanto mais quente melhor, de Billy Wilder, e de tantos outros clássicos da comédia que transformam o travestismo em comédia de erros.

A questão, porém, é muito mais problemática. Geralmente, quem aponta se um filme é bom ou ruim são os críticos de cinema e, dependendo da opinião e credibilidade do crítico de cinema, um espectador pode ir ou deixar de ir ao cinema. Temos, portanto, um juízo subjetivo que interfere de maneira objetiva numa realidade concreta, a qual deveria estar isenta de interferências de natureza passional.

O que diferencia um bom filme atual de um bom filme clássico? O que diferencia Onde os fracos não têm vez de Bonnie & Clyde? A resposta é simples: o tempo. É somente o tempo que é capaz de dizer se algo é efêmero ou intemporal, e o mesmo se dá em relação aos filmes. Todavia, há um sem-número de bons filmes, mas aquilo que compõe a noção de um cânone do cinema não se aplica apenas aos bons filmes, mas sim aos filmes que têm o valor representativo de instituir um paradigma ou de rompê-lo. Nem o valor de obra-prima é capaz de canonizar um filme ou não.

Tomemos como exemplo O Sol é para todos (1962), de Robert Mulligan. Não há dúvidas de que este filme seja uma obra-prima, bem como o musical My Fair Lady – Minha Bela Dama (1964), de George Cukor. Se nós compararmos esses dois filmes com alguns dos melhores filmes da atualidade, como, por exemplo, O Pianista (2002), de Roman Polanski, ou Sangue Negro (2007), de Paul Thomas Andersen, (Este, inclusive, foi comparado por muitos críticos, na época de seu lançamento, ao maior de todos os filmes, Cidadão Kane), ainda assim O Sol é para todos seria considerado um filme maior, apesar de não haver dúvidas de que Sangue Negro seja, daqui a alguns anos, apontado como um dos pilares do cinema contemporâneo.

O cânone estabelece-se pela importância histórica que adquirem os elementos que o compõem, ou seja, é difícil afirmar se um filme será parte do cânone quando este for lançado nos cinemas. Sem o olhar dissecador do tempo, há o perigo de se cometer equívocos, às vezes, irreversíveis. A história mais famosa destes equívocos, e são tantos, aconteceu na cerimônia do Oscar de 1942, quando Cidadão Kane, considerado o melhor filme já feito, faturou apenas o Oscar de roteiro original, perdendo os prêmios de melhor direção, melhor fotografia e melhor filme para Como era verde o meu vale, de John Ford. Como era verde o meu vale é um bom filme, muito superior aos que Hollywood produz hoje em dia, mas parece loucura ter de aceitar que fora este filme que desbancou a obra-prima de Orson Welles.

Entre outros erros históricos da Academia, podemos destacar: o Oscar de melhor ator que John Wayne ganhou por Bravura Indômita, em detrimento da performance perfeita de Dustin Hoffman em Perdidos na Noite, na edição de 1970; O Bom Pastor, de Leo McCarey, faturar o Oscar de melhor filme, em 1945, ao invés de Pacto de Sangue, de Billy Wilder, obra-prima par excellence; Além destes casos mais famosos, há, ainda, outros injustiçados pela Academia, como: Laranja Mecânica, A Primeira Noite de um Homem, Intriga Internacional, Cantando na Chuva, Doutor Fantástico, Psicose, 2001: Uma Odisséia no Espaço, O Tesouro de Sierra Madre, Taxi Driver, Apocalypse Now, A Cor Púrpura, entre outros. Talvez, no intuito de desfazer estes equívocos da Academia, a revista de cinema Sight &Sound passou a divulgar a cada década a lista dos melhores filmes já feitos.

A S&S divulgou as listas dos melhores filmes já feitos em 1952, 1962, 1972, 1982, 1992 e 2002.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

O CÂNONE DA SÉTIMA ARTE

Seria exagerado afirmar que o cânone do cinema existe antes mesmo do cinema ser inventado, não é? Contudo, desde a primeira exibição de um filme, em 28 de dezembro de 1895, no Grand Café do Boulevard des Capucines, em Paris, o cinema foi uma arte voltada para a elite burguesa, que estava curiosa pelas invenções da ciência.

Irônico é o fato de que o primeiro curta a ser exibido foi La Sortie des Ouvriers de l'Usine, produzido pelos irmãos Louis e Auguste Lumière. A classe operária foram os primeiros atores a serem vistos na Grand Écran. Por um lado, são os “15 minutos de fama” desses ilustres desconhecidos, porém, era o olhar da bourgeoisie, que tratava de supervisionar o proletariado, como o Big Brother, de George Orwell, em 1984, não o da TV Globo.

Antes que eu me perca em digressões sem nexo novamente, demonstrarei em que medida os filmes considerados os melhores já feitos seguem um cânone próprio. Mas, para isso, será necessário recordarmos a breve história do cinema, uma arte com pouco mais de 100 anos.

1888 – Roundhay Garden Scene, de Louis Le Prince, e Traffic Crossing Leeds Bridge. São os dois primeiros filmes já feitos, tendo cerca de dois segundos de duração cada um deles.

1895 – Primeira exibição da história do cinema. Entre os filmes exibidos destacam-se: A saída dos operários das usinas Lumière e A chegada do trem na estação, produzidos pelos Irmãos Lumière.

1902 – Viagem à Lua, de Georges Mèlies. O primeiro filme de ficção-científica.

1903 – O Grande Roubo do Trem, de Edwin S. Porter. O Primeiro faroeste.

1911 – Little Nemo, de Winsor McCay. O primeiro filme de animação.
1915 – O Nascimento de uma Nação, de David Wark Griffith. O Primeiro longa-metragem.

1918 – The Sinking of the Lusitania, de Winsor McCay. O Primeiro longa-metragem de animação.

1919 – O Gabinete do Dr. Caligari, de Robert Wiene. Marco do Expressionismo alemão.

1923-24 – Paris Adormecida e Entr’acte, de René Clair. Primeiros filmes da vanguarda dadaísta.

1925 – O Encouraçado Potemkin, de Sergei Eisenstein. Um dos filmes mais revolucionários do cinema e um dos principais filmes do construtivismo russo.

1927 – O Cantor de Jazz é o primeiro filme falado. Napoleão, de Abel Gance, introduz o sistema de projeção Polyvision, de tela tripla.

1929 – Um Cão Andaluz, de Luís Buñuel e Salvador Dali, é o marco do surrealismo no cinema. É realizada a primeira cerimônia do Oscar em 6 de maio de 1929.

1939 – O Ano de Ouro de Hollywood: O Mágico de Oz,... E o Vento Levou, O Morro dos Ventos Uivantes, A Mulher faz o Homem, Duas Vidas, No Tempo das Diligências, Ninotchka, etc.

1941 – Relíquia Macabra, de John Huston, é o marco inicial do filme noir, mas o maior destaque do ano é, sem dúvida, Cidadão Kane, de Orson Welles. Inovador pelo uso sistemático da profundidade de campo, pela narrativa não-linear, pela montagem, pelos movimentos inusitados da câmera, entre outros aspectos, Cidadão Kane é o filme mais copiado e mais influente de toda história do cinema. De fato, o cinema divide-se em antes e depois do filme de Orson Welles, que é considerado por críticos de todo mundo como o melhor filme já feito.

1945 – Roma, Cidade Aberta, de Roberto Rossellini, é o primeiro e principal filme da estética neo-realista na Itália, que, apesar dos poucos recursos, inovou pela utilização de atores não-profissionais, pelo uso de cenários naturais e por retratar o cotidiano da população devastada pela guerra.

1952 – Cantando na Chuva, de Gene Kelly e Stanley Donen, representa o auge dos musicais de Hollywood.

1954 – “Uma certa tendência do cinema francês”, artigo escrito por François Truffaut, nos Cahiers du Cinéma, estabelece os alicerces da política do “cinema de autor.” Rio, 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos, é o precursor do Cinema Novo.

1959 – A Nouvelle Vague francesa, cujos representantes eram, em sua maioria, críticos de cinema, inova tanto pela utilização de novos recursos técnicos, como pelos poucos gastos. Em Acossado, de Jean-Luc Godard, obra-prima do movimento, foram gastos pouco mais de 90 mil dólares em sua realização. Ainda em 1959, o épico religioso Ben-Hur, de William Wyler, ganha 11 Oscar, record que só foi alcançado em 1997, com Titanic, de James Cameron, e, em 2003, com O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei, de Peter Jackson.

1964-65 – São produzidos dois dos mais importantes filmes do Cinema Novo: Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, e Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, o único brasileiro considerado pelo British Film Institute como um dos 360 filmes mais importantes da história do cinema. Em 1965, Glauber Rocha publica o manifesto “Estética da Fome”, cuja idéia principal era “uma idéia na cabeça e uma câmera na mão.”

1968 – 2001: Uma Odisséia no espaço, de Stanley Kubrick, é considerado um marco no gênero ficção-científica e do próprio cinema.


1971 – Stanley Kubrick adapta o romance de Anthony Burgess sobre a violência em uma sociedade futurista e gera polêmica em todo o mundo. O filme Laranja Mecânica foi proibido em diversos países, inclusive, no Brasil.

1976 – O Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima, é o primeiro filme “sério” com cenas de sexo explícito. No ano seguinte, Guerra nas Estrelas (1977), de George Lucas, torna-se recordista de bilheteria e é considerado um marco no desenvolvimento de efeitos especiais.

1979 – Considerado por alguns críticos como a obra-prima de Francis Ford Coppola, Apocalypse Now, clássico sobre a guerra do Vietnã inspirado no romance de Joseph Conrad, O Coração das Trevas, é, talvez, o último grande filme produzido na história o cinema. (De fato, a escolha foi arbitrária, pois, o cinema continuou a produzir bons filmes depois desta data. A opção de apontar Apocalypse Now como o último filme da história do cinema aconteceu devido a uma analogia entre o título do filme e o marco final da humanidade, o apocalipse).